Contraste

Como todo mundo sabe, a economia americana está indo pro buraco. Muitas demissões, diminuição abrupta no consumo, muita gente sem conseguir pagar a hipoteca e perdendo suas casas. O governo vêm tentando energizar a economia com seus “pacotes de estímulo” (stimulus package): nosso queridíssimo George W. passou um alguns meses antes de sair da Casa Branca, logo ao começar a crise, e o Obama agora está suando para passar mais um. Esse novo pacote, na quantia módica de USD800 bilhões (ou 800.000.000.000 de dólares) consiste basicamente em obras públicas e investimento em áreas básicas, como saúde e educação.

Uma das maiores dificuldades que o novo governo está encontrando em passar seu novo pacote é, curiosamente, o resultado do pacote anterior. O pacote de Bush foi dirigido ao mercado financeiro: basicamente deu centenas de bilhões de dólares aos bancos (comprando suas dívidas) para que estes pudessem voltar a emprestar dinheiro à população e a economia comecasse a funcionar de novo. O problema é que o dinheiro foi dado incondicionalmente: os bancos, que não são bestas (nem honestos), pegaram o dinheiro e continuaram usando do mesmo jeito que sempre usaram. Nada de emprestar pra população, eles usaram o dinheiro para comprar outros bancos e, o que gerou a maior crítica do povo e da imprensa, para pagar grandes bônus a seus funcionários.

Em suma: bancos que estão recebendo dinheiro público para não falirem estão gastando esse dinheiro com imensos bônus, que em sua maioria vão para os grandes executivos. A indústria financeira gastou em 2008 18 bilhões de dólares somente em bônus para seus funcionários. Embora esse número seja menor que o dos últimos anos, ainda é maior que o de 2005, quando a indústria estava no auge e, mais importante, não estava funcionando movida a dinheiro público. Quando esse número foi revelado, Obama fez duríssimas críticas aos bancos e imediatamente propôs limitar o salário dos executivos em USD500,000 por ano.

Banqueiros acham $500.000 por ano pouco

Banqueiros acham $500.000 por ano pouco

Pois bem, 500 mil doletas por ano (praticamente 10 mil por semana) parece um salário extremamente razoável. Não para os ricos banqueiros de NY. Uma matéria do NY Times de hoje mostra como a classe média-alta nova-iorquina simplesmente não conseguiria viver com módicos 10 mil por semana. Afinal, eles tem:

  • o apartamento de 3 quartos no Upper East Side (uns $20 mil por mês)
  • a casa de campo ($240 mil por ano)
  • a viagem anual de ski e a viagem anual ao Caribe
  • a escola particular e a babá das crianças das crianças
  • personal trainer (3x por semana, uns $12 mil por ano)
  • os vestidos das festas de gala (3 ou 4 por ano, uns $12 mil cada)
  • os impostos, que esse governo democrata faz questão que eles paguem (não imagino porque)
  • vários outros gastos fundamentais e sem os quais, não conseguiriam viver.

Simplesmente não dá gente! Uma dondoca chega a afirmar: “se ganhassemos 500 mil por ano, teríamos que vender imediatamente a casa de campo”. E o horror de ter que colocar os filhos em escola pública? Que tristeza, eu sinto até um pouco de dó. Ou não.

O contraste vem da história de Michaell Gill, um cara que até alguns anos atrás era figurão da indústria de propaganda e provavelmente tinha todos os luxos acima e mais. Uma certa manhã ele é sumariamente demitido. Logo depois a esposa pede divórcio. E alguns meses depois ele é diagnosticado com câncer no cérebro. Um dia, ao passar pelo Starbucks, o gerente pergunta se ele gostaria de trabalhar lá. Ele aceita e começa uma bela história estilo sessão da tarde: redenção, cura e o encontro da felicidade em atos simples como escovar o vaso sanitário da loja. A reviravolta vêm quando você descobre que Mike escreveu um livro sobre sua incrível história, ele virou um best-seller e vai virar filme do Gus Van Sant e com o Tom Hanks.

Não sei exatamente o que me fez pensar que essas duas história estão conectadas. Acho que é algo sobre a ideologia do povo americano, me faz pensar que Michael, apesar de toda a felicidade limpando banheiros no Starbucks, queria na verdade era voltar a sua vida de casa no campo e personal trainers. Será que ele não podia só se contentar em fazer café, se isso o realmente fazia feliz? Ou será que somos todos assim, sempre cobiçando uma vida mais rica?

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Publicado em Uncategorized por Daniel. Marque Link Permanente.

Sobre Daniel

Me formei em computação pela UFRN, fiz pós-graduação na PUC do Rio de Janeiro, moro em Nova York com minha esposa, sou engenheiro de software no Google. A queda de braço entre viver o que sempre sonhei e estar longe da família e dos amigos é constante.

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