Mudando o foco

A mídia é sensacionalista em qualquer lugar do mundo. Os canais de notícia, então, são impossíveis. Desde o ano passado, o único tópico dos jornais era a crise econômica, intercalada pela posse de Obama. Agora, o foco é a gripe suína. Para os que nos ligaram ou mandaram emails ou recados, sim, estamos bem. Apesar de todo o pânico que a mídia tem causado, estamos nos cuidando na medida do possível. Não fomos ao México. =) E estamos tomando os cuidados possíveis para evitar gripe – suína ou não.

Mas não quero falar de gripe suína. Quero falar de algo que está acontecendo por aqui que, apesar de ser esperado e meio óbvio, pode passar despercebido… e são coisas que os jornais não falam.

O número de “artistas de rua” é muito grande aqui. Diariamente, encontramos dezenas deles, não apenas um ou dois. Daniel anda nas ruas na hora do rush, então vê menos. Como eu ainda ando num “horário de turista”, vejo sempre! Moramos no Queens e minhas aulas de inglês são em Downtown Manhattan. Para minha sorte, pego apenas um metrô, mas a viagem dura de 30 a 40 minutos. Nesse tempo, entram duplas ou trios mexicanos (ou outros latinos) de meia idade com seus violões, cantando em suas línguas nativas; grupos de 3 a 5 negros, adultos e mais senhores, fazendo suas capelas; jovens solitários tocando seus violões, violinos ou qualquer outro instrumento… todos pedindo dinheiro, no final. Durante as férias escolares, alguns adolescentes (normalmente meninos negros) vendendo chocolates. Algumas vezes, alguns homeless pediam dinheiro também. Mas muito pouco.

De uns meses pra cá, estamos notando um crescimento no número de “artistas de rua”. As crianças vendedoras de chocolate foram substituídas por homens e mulheres vendendo chocolates ou joguinhos (como o cubo mágico). E os pedintes não se resumem mais aos homeless. São senhores e jovens, homens e mulheres, homeless ou não. E não pedem apenas dinheiro…

Um dia desses eu estava no metrô e um homem entrou e pediu dinheiro. Ou comida. Ele estava com fome… ele e a esposa tinha perdido o emprego. A mesma conversa que eu já estou acostumada, também parecido com o Brasil. Continuei lendo meu livro e não me virei pra ver quem estava falando. Daí, como eles andam do começo ao final do carro, esperando receber alguma coisa, ele passou por mim e eu levantei o olhar. Era um homem jovem, assim, menos de 30 anos. Vestido completamente normal… branco, alto, corpo médio, limpo, com uma mochila e de jeans, tênis e camiseta. Exatamente como nós andamos… e pedindo comida! Ele não pediu só dinheiro! Pediu comida!

Eu estou “acostumada” com pobreza, afinal, isso temos o tempo todo no Brasil. Mas quem pede comida ou dinheiro são pessoas muito pobres! Fiquei levemente chocada, mas acho que ainda tenho um coração endurecido para a pobreza daqui. Apesar de tudo, não é a miséria dos brasileiros… mas fiquei triste pelo rapaz. Que situação…

Daí, hoje pela primeira vez, recebi papelzinho no metrô: “Por favor, me ajude com qualquer coisa. 1, 5, 10 centavos. Deus te abençoe.” Só faltou dizer que era pra comprar o carrinho de pipoca ou o isopor pro picolé. Um ano depois, uma NY em crise.

Anúncios

5 respostas em “Mudando o foco

  1. É aqui tb só existe a gripe suina.Não tem outra notícia.Nem a dengue que mata mais e mais rápido….Até Marianna lembrou do filme Ensaio sobre a cegueira( ?): “Foi a cegueira que espalhou o pânico ou o pânico que espalhou a cegueira”?

  2. Aqui os pedintes inventaram uma moda: explorar a própria desgraça. Outro dia uma amiga disse que tava num ônibus e um cara entrou, todo cortado e com um canivete nas mãos, dizendo que estava com aids e que iria cortar e contaminar quem não desse dinheiro a ele! Já pensou?

  3. É complicado julgar essas coisas, aqui a gente sabe que tem miséria sim, mas que tem muito comodismo tb… afinal, se pedindo no sinal se ganha o dobro do salário mínimo…

    Eu não dou esmola por convicção… mas ouvir alguém pedir comida é de cortar o coração.

  4. Só que na hora que pede a comida não há nada para comprar e você acaba dando dinheiro mesmo. Vejo que é um artifício. Tem algum brasileiro exportando o jeito de pedir. Daqui a pouco vai ser: eu podia estar roubando, matando, explodindo etc. Lamento , mas já dei 10 centavos para um cara que pediu qualquer quantia e ele jogou na minha cara.

    • Na verdade, aqui é muito comum as pessoas terem comida na bolsa. Acho que é da cultura americana, mas muita gente leve almoço/jantar/lanches para o trabalho e as pessoas sempre parece ter uma fruta ou barrinha de cereal na bolsa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s